A capitalização da Petrobras é uma operação tão gigante que praticamente parou o funcionamento do mercado de capitais brasileiro em 2010. Desde abril, não houve nenhum IPO (abertura de capital) nem oferta de ações importante no país, com exceção da capitalização do Banco do Brasil, que foi um "teste da operação" da Petrobras.
Só a expectativa de entrada de pelo menos US$ 25 bilhoes de recursos de estrangeiros tirou o dólar da casa de R$ 1,80 em junho e empurrou para R$ 1,75. Tem gente que fala que ele poderia descer para menos de R$ 1,70.
Alguns analistas dizem que a Bolsa "anda de lado" desde julho, o primeiro mês do segundo semestre, por causa da capitalização da Petrobras. Como não se sabia preço e a operação pode sair em duas semanas, muitos investidores limitam suas apostas porque podem precisar de recursos de um dia para outro.
Nas palavras de Kelly Trentin, analista da corretora Spinelli, a operação definirá os rumos da Bolsa no restante do ano. Se for comprada pelo mercado, as ações da Petrobras podem voltar a subir e recuperar o terreno perdido, puxando toda a Bolsa para cima.
Vale lembrar que a Petrobras representa 12% da Bolsa brasileira --ja foi 20% há um ano.
Se a operação for um fiasco, com presença importante apenas das empresas do governo e de fundos de pensão de estatais --o governo transferiu ações para Caixa Econômica Federal, BNDES e permitiu que o Fundo Soberano compre ações-- todo o mercado perderá.
Nessa operação, os minoritários (e por minoritário entenda-se os principais fundos de investimento e de pensão do mundo) foram muito mal tratados.
A operação não passou nem por uma última assembleia de acionistas, que poderiam muito bem referendar o preço do barril de petróleo. Foi usado um artifício para delegar ao conselho de administração o poder final sobre a oferta de ações.
Em nenhum momento, está previsto que o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, apareça a todos os acionistas explicando a operação, dando a visão dos gestores e recomendando ou não a operação.
E isso é uma conquista das novas regras do mercado, que entraram em vigor neste ano, e pedem esse encontro entre gestor e acionistas em momentos decisivos de uma companhia aberta. Essa regra foi instituída, inclusive, para que mais tarde o gestor possa ser responsabilizado por fazer uma recomendação equivocada de um negocio para seus acionistas.
Segundo especialistas em governança corportativa, essas violações (todas com justificativa legal) são incompatíveis com o país que criou o Novo Mercado da Bolsa, segmento de alta transaparência e respeito aos minoritários, e que fez do Brasil o país dos IPOs e o Bric com o mercado de capitais mais desenvolvido.
Felizmente para o governo e para a Petrobras, o mercado de capitais troca "bom dia" e cordialidade por oportunidade de ganhar dinheiro se a operação se mostrar lucrativa para todos os lados. |